Escola de pais

QUESTÃO DE EDUCAÇÃO - 'Não facilite demais a vida do seu filho'

Recomendação é do psicanalista Ailton Bastos, para quem a superproteção pode deixar crianças e adolescentes 'aleijados emocionalmente'

 

 

Marcos Zanutto
'Tudo que a criança já pode fazer sozinha, não faça por ela', afirma Ailton Bastos

Até uma certa idade, os filhos necessitam de cuidados constantes e ficam com os pais ou babás, com algum familiar ou nas creches e escolas. Depois podem começar a ficar sozinhos em casa, ir para a escola sem a tutela dos pais, sair com os amigos...

                A questão é: qual a idade mais adequada para começar a soltar os filhos no mundo? A grande dificuldade dos pais é conciliar a vontade das crianças e adolescentes e o medo da violência, que não poupa mais nem as cidades menores.

                A FOLHA conversou com o psicanalista Ailton Bastos. Além da experiência no consultório, ele também promove ''escolas de pais'' onde trata, entre outros assuntos, desse momento complicado.


A partir de qual idade os filhos podem começar a ficar sozinhos em casa?

                Isso é muito mais um conceito do que uma regra para cada família, porque vai depender do nível de maturidade dessa criança ou adolescente. A partir do momento que a criança nasce, precisamos ir dando a ela oportunidades para ter autonomia. Não adianta uma família, por conta do que leu em algum lugar, de uma hora para outra querer estabelecer que os filhos precisam fazer determinadas coisas sozinhos sem um passo a passo prévio, uma gradação. Quando a criança olha para um brinquedo e o deseja, essa mãe ou cuidadora que estiver próxima não deve dar a ela, deve deixar que ela mesma vá pegar.

Os filhos dão sinais dessa maturidade?

                Eles dão sinais da necessidade. Por exemplo, guardar um brinquedo, comer sozinho. Quando chegam na escola já passaram por uma série de vivências e experiências que deram a eles determinados níveis de autonomia. Os filhos precisam de autonomia de pegar seu próprio material, assentar-se para fazer sua tarefa.

É um processo, ele não precisa ir para o colégio direto, pode começar indo no bar da esquina primeiro?

                Pode começar com um ambiente onde os adultos consideram seguro para que ele desenvolva essa capacidade e autonomia. A partir daí o adulto vai observar o nível de maturidade dessa criança. Às vezes já é adolescente e as pessoas pensam ''o mundo está violento''. Eu penso o seguinte, o mundo não vai deixar de estar violento e essa questão de risco todos nós corremos. O que os pais podem fazer é instruir como proceder em determinadas ocasiões, se for assaltado não reagir etc. Nós temos garantia que esse adolescente não vai sofrer alguma coisa? Não, mas temos garantia que ele está sendo preparado para enfrentar essas situações.

O maior medo dos pais é da abordagem, de sequestro, de pedofilia...

                Penso que vai muito além. O maior medo dos pais é que os filhos passem qualquer tipo de sofrimento. Eles puseram na cabeça que os filhos não podem sofrer nenhum tipo de frustração. A receita é: tudo que seu filho já pode fazer, não faça por ele. Não facilite demais a vida dele. A possibilidade de pedofilia, assalto, sempre existe. Quanto mais você expuser o seu filho a determinadas experiências, mais ele vai estar preparado para enfrentar essas situações.

No caso específico dessas abordagens, somos acostumados a ouvir desde cedo para não nos relacionarmos com estranhos, mas esses adultos têm uma forma de convencimento grande. Como fazer?

                É preciso falar claramente sobre isso. Ajudar a criança a diferenciar um toque de carinho de um que seja invasivo. Ela deve ter algumas regras muito claras, não entrar no carro de ninguém, não aceitar presente. Não pode ser uma ideia muito vaga.

Psicologicamente ou biologicamente existe alguma idade em que eles estejam mais preparados?

                Em cada momento da vida somos submetidos a um tipo de perigo. Para a criança pequena pode ser a panela quente, uma tomada. Na adolescência vem as drogas, as doenças sexualmente transmissíveis, a gravidez precoce. Quanto mais se dá autonomia, mais se expõe a determinados riscos. Mas a autonomia precisa caminhar paralelamente à responsabilidade e é aí que a coisa pega. Porque os pais estão tirando dos filhos todas as responsabilidades. A partir de determinada idade os filhos querem dirigir, querem tudo, só que nem sempre foram treinados para serem responsáveis.       Aquilo que você considerar que tem um risco moderado, deixe seus filhos se exporem. Se você zera os riscos, está aleijando emocionalmente o seu filho.

Folha de Londrina – Opinião 13/05/2009

 

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